Efeito do horário de Verão: Será que a disposição dos investidores muda?

Tuesday, 29 March 2011 15:27 atm
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O Observatório Astronómico de Lisboa determinou que os relógios devem adiantar 60 minutos no último domingo de Março, para dar lugar há hora de Verão. Assim, em Portugal, à 1h00 (da manhã) de dia 27 de Março de 2011, os relógios mudam para as 2h00 (da manhã).

O horário de Verão, conhecido também como Daylight Saving Time (DST), consiste em adiantar os relógios em uma hora durante o período de Verão, com o objetivo das manhãs passarem a ter menos luz do dia em contrapartida das tardes, que assim passam a gozar de mais uma hora de luz do dia.

De acordo com Kamstra, Karmer & Levi (2000), a noção de Daylight Saving Time foi proposta por Benjamim Franklin em 1784, no entanto apenas mais tarde é que a ideia foi popularizada com a necessidade das nações conservarem energia durante a 1ª Guerra Mundial. No EUA o “horário de Verão” foi imposto por decreto-lei em 1917, para logo ser abolida em Agosto de 1919 devido aos protestos dos agricultores. Em 1967, finalmente, o Congresso americano aprovou a lei (conhecido como “daylight saving act”, com alguns (poucos) Estados a decidirem não participar.

O Daylight Saving Time effect no retorno dos mercados acionistas

Na finança comportamental existem vários efeitos de calendário que normalmente são tidos em conta pelos participantes no mercado, tornando o próprio facto de esses efeitos serem observados, com a maior probabilidade de ocorrerem. Alguns desses efeitos são o “Quarterly Effect”(Carhart et al., 2002) “January Effect” (Keim, 1983), “Holidays Effect” (Meneu & Pardo, 2004 ), “Weekend Effect” (French, 1980) e o mencionado “Daylight Saving Time Effect”.

Em resultado de alguns destes efeitos de calendário nasceram algumas máximas da Wall Street como são os velhos adágios: “As January goes, the year goes” e“sell in May and go away” que perduram no tempo e que tem vindo a ser estudados em vários papers académicos.

O efeito DST tem sido também estudado por alguns académicos, tais como os citados Kamstra, Karmer & Levi, no working paperLosing Sleep at the Market: The Daylight Saving Anomaly”. Este autores concordam, de imediato, que o rendimento de um dia depois de uma má noite de sono, é sempre pior do que numa noite normal devido ao cansaço, letargia e até desanimo. Para além disso, até pequenos desequilíbrios no sono têm sido apontados como os causadores de erros de julgamento, ansiedade, impaciência e falta de atenção. De facto, tem sido argumentado que existem fortes ligações entre os desequilibrados no sono provocados pela mudança de turnos e o acidente nuclear de Chernobyl, o derramamento de óleo da Exxon Valdez e a explosão da space shuttle Challenger. Igualmente, menos publicitados, são os pequenos acidentes que resultam de distúrbios no sono.

Uma das demonstrações óbvias das perturbações no sono é a forma de tortura usada para que as pessoas fiquem confusas e desiludidas e acabem por revelar segredos, ao mantê-las forçadamente acordadas por longos períodos ou a interromperem o seu sono várias vezes. O mesmo é observado com o efeito do jet lag.

Ora se a necessidade de dormir (bem) é assim tão óbvia, não terá o sono e as suas perturbações consequências nos mercados financeiros?

Kamstra, Karmer & Levi concluíram então que as alterações do horário de Verão têm impacto no funcionamento nos mercados financeiros em duas semanas perfeitamente identificadas em cada ano, que são aquelas em que ocorre a mudança.

Despistando o “weekend effect” e o “bid-ask bounce”, que são dois bias possíveis na alteração dos resultados, os autores encontram uma notável evidência do efeito do DST nos retornos observados em vários mercados (NYSE, AMEX, NASDAQ, S&P500, TSE300, FTSE, DAX100) e em vários (longos) períodos. O fim de semana em que ocorre a mudança para o horário de Verão apresenta, em média, um retorno negativo, em aproximadamente duas a cinco vezes mais, do que a média dos fins de semana “normais” para todos os índices observados, sendo o efeito ainda maior quando a mudança do horário se dá para o Inverno.

No entanto, Gregory-Allen, Jacobsen & Marquering (2008) – GJM -, visando diretamente o trabalho de Kamstra, Karmer & Levi, colocam em causa as conclusões obtidas, argumentando que os resultados obtidos podem ser endereçados a outros efeitos tais como o efeito psicológico real ou eventos económicos que conduzam a esses resultados. Indo mais longe, GJM concluíram não haver evidencias observáveis do efeito da mudança do horário de Verão no retorno dos índices, rejeitando assim as conclusões até a data encontradas na literatura de que dava como certo que a disposição dos investidores altera-se com a alteração dos padrões de sono provocadas pela alteração do horário de Verão.

Conclusão

O tema, com se vê, divide autores e parece que ainda estamos longe de um consenso sobre o assunto. No entanto, realizando uma analise regressiva, cujo os resultados se apresentam em anexo e na tabela 1, podemos afirmar que não existe evidencia da significância do efeito DST no comportamento dos mercados acionistas.

Em todo o caso, a analise agora efetuada recai apenas sobre os retornos do S&P500 e entre o período de 1990 e 2010, quando o estudo de Kamstra, Karmer & Levi (2000) abrange o período de 1928 a 1997 para o S&P500 e períodos semelhantes para outros índices, o que por si só pode determinar a diferença de resultados não obstante a metodologia ser também diferente.

Atualmente vivemos num mundo cada vez mais global, em que os intervenientes no mercado acionista, nomeadamente no americano, participam rápida e diretamente no mesmo a partir de várias partes do mundo, com fusos horários muito diferenciados, o que por si pode alterar os eventuais efeitos do DST. Acresce a isto o próprio efeito do algorithmic trading e do high frequency trading que deixa o mercado menos suscetível ao efeito da discricionariedade e arbitrariedade da participação humana, uma vez que estes movimentos já representam uma parte significativa (maioritária) dos negócios efetuados.

Tabela 1 - Summary Output da regressão efetuada para determinar a significância entre os retornos do índice S&P 500 e o efeito do horário de Verão

(clique na imagem para ampliar)

Summary Output - Regressão retornos S&P500 vs DST effect

Ficheiro de dados da regressão em formato xlsx

Por: Octávio Viana é o atual presidente da Associação de Investidores e Analistas Técnicos do Mercado de Capitais e autor do livro “Estudos no Mercado de Capitais”, da Editora ATM.

Bibliografia

French, R. K. (1980, March). Stock Returns and the Weekend Effect. Journal of Financial Economics , 8 (1), pp. 55-69.

Gregory-Allen, B. R., Jacobsen, B., & Marquering, W. (2008, April 4). The Daylight Saving Time Anomaly in Stock Returns: Fact or Fiction?. Working Paper Series.

Kamstra, J. M., Kramer, A. L., & Levi, D. M. (2000, September). Losing Sleep at the Market: The Daylight Saving Anomaly. The American Economic Review , 90, pp. 1005-1011.

Last Updated on Friday, 06 May 2011 21:25  
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